Mônica Salmaso estréia na Biscoito Fino com iaiá
Considerada por críticos e músicos uma das mais representativas
vozes da nova geração da música popular, a paulista
Mônica Salmaso dá continuidade à sua impecável
discografia com o cd iaiá, seu primeiro trabalho pela gravadora Biscoito
Fino, e quarto disco na carreira.
“iaiá é um grande encontro de universos – de músicos
e compositores, São Paulo e Rio de Janeiro – de uma forma livre,
às vezes simples, às vezes complexa. Muitas músicas
foram gravadas ao vivo no estúdio, e isso faz com que seja um cd
mais orgânico e mais vivo”, diz Mônica.
O lançamento de iaiá encontrou a cantora em um momento especial
de sua carreira. “Primeiro, porque esse cd é minha estréia
na nova gravadora; depois, porque passei quatro anos sem gravar, fazendo
apresentações pelo Brasil e exterior. Eu não sei exatamente
o tamanho do meu público. Fiz muitos shows cantando
com outras pessoas, e meu trabalho foi crescendo de mansinho. Acho que esse
disco poderá me mostrar um pouco a medida do público que foi
criado até agora.”
Dona de uma voz doce e penetrante, de timbre único e raro, Mônica
tem o poder de transformar suas interpretações em clássicos
- qualidade própria das grandes cantoras. Chama a atenção
sua capacidade de transitar com facilidade entre o erudito e o popular,
não se limitando ao rótulo de cantora de um só gênero.
Apesar de ter seu nome ligado à nova geração da música
popular, Mônica conta com um currículo sólido. Nomes
como Edu Lobo, Paulo Bellinati, Eduardo Gudin, José Miguel Wisnik,
Marlui Miranda, Guinga, Arnaldo Antunes - com quem participou do disco do
Grupo de dança O Corpo -, Nelson Ayres e a Orquestra Jazz Sinfônica
de São Paulo, entre outros, integram sua história musical.
Em iaiá, Mônica rende homenagem a Clementina de Jesus, com
a canção "Moro na roça". “O Heron Coelho,
pesquisador da música brasileira, me deu uma caixa de discos da Clementina
que é uma verdadeira maravilha. Também ganhei algumas fitas
com programas antigos de televisão. Fiquei enlouquecida”, explica
a cantora.
A maior parte das músicas de iaiá foi tirada do repertório
do projeto Ponto in Comum, que ela produziu no SESC-SP em 2002 e 2003. "Foram
oito diferentes espetáculos, sempre com artistas convidados, e com
o repertório baseado no trabalho desses artistas. Nesses encontros,
desde a sua preparação até o espetáculo final,
eu aprendi uma quantidade incrível de músicas. Muitas delas
foram incluídas nesse novo trabalho.”
O novo cd conta ainda com a participação do músico
Rodolfo Stroeter, produtor e co-diretor musical do disco, com quem Mônica
realiza o quarto trabalho (Trampolim, Voadeira, Nem um ai, que ainda não
foi lançado, e iaiá) "Nós trabalhamos muito bem
juntos. Acho que pensamos o Brasil de modo parecido e temos muita facilidade
em entender o que o outro está idealizando sobre o trabalho. Fica
muito fácil trabalhar quando existe afinidade musical e criativa."
No repertório, convivem compositores de diferentes épocas,
estilos e regiões, tais como Dorival Caymmi, Maurício Carrilho,
Paulo César Pinheiro, Jair do Cavaquinho, Xangô da Mangueira,
Zagaia, Silvio Caldas, De Chocolat, Carusinho, Rodolfo Stroeter, Joyce,
Vanessa da Mata,Tom Jobim, Vinícius de Moraes, José Miguel
Wisnik, Chico Buarque e Tom Zé.
Em relação à participação dos músicos:
“Cantar com diferentes músicos e formações é
uma característica da minha carreira. É assim que eu aprendo
e me divirto cantan do. Nesse disco, participaram alguns dos músicos
que eu mais admiro e aos quais sou imensamente grata.” Participam
do disco, dentre outros, Paulo Bellinati, Robertinho Silva, Benjamim Taubkin,
Rodolfo Stroeter, Toninho Ferragutti, Ari Colares, Teco Cardoso, Lui Coimbra,
Caíto Marcondes, André Mehmari, Luca Raele e o quinteto Sujeito
a Guincho, Maurício Carrilho, Luciana Rabello, Pedro Amorim, Jorginho
do Pandeiro e Nailor "Proveta" Azevedo.
Com Teresa Cristina, divide a faixa "Na aldeia", canção
que integra nosso cancioneiro popular e que já foi eternizada por
Silvio Caldas. Nesse novo dueto, com um dos principais nomes da nova geração
do samba, Mônica dá um belo exemplo de que a música
popular brasileira não está parada no tempo e mostra que seu
nome está definitivamente ligado aos músicos e intérpretes
antenados com a qualidade da produção musical. |
Comentários sobre
as músicas:
1. MORO NA ROÇA
(Adaptação de tema popular de Xangô da Mangueira e
Zagaia)
Violão 7 cordas: Maurício Carrilho
Percussões: Robertinho Silva
É uma felicidade homenagear a Clementina.
Na semana anterior à gravação, eu tinha visto imagens
em VHS e escutado sua discografia (presentes do pesquisador Heron Coelho).
A sua imagem e a sua voz estavam fortemente presentes.
Gravamos os três ao vivo e depois o Robertinho ficou livre para
fazer sua “orquestra” de percussão.
2. CABROCHINHA
(Maurício Carrilho / Paulo César Pinheiro)
Violão 7 cordas e arranjo: Maurício Carrilho
Cavaquinho: Luciana Rabello
Bandolim: Pedro Amorim
Violoncelo: Iura Ranevsky
Pandeiro: Jorginho do Pandeiro
Tamborim: Celsinho Silva
Tamborim: Gordinho
Clarinete: Nailor "Proveta" Azevedo
Flauta: Marcelo Bernardes
Eu já canto
essa música há alguns anos, e sempre adoro. Ela tem a graça
da letra e da melodia e, somado a elas, o tempo do Brasil da boa e cordial
malandragem.
Gravar com esses músicos e estar de alguma forma perto do que eles
têm feito na Acari é uma honra para mim.
3. ESTRELA DE OXUM
(Rodolfo Stroeter / Joyce)
Violão: Paulo Bellinati
Flauta baixo “a Gorda” : Teco Cardoso
Baixo acústico: Rodolfo Stroeter
Percussão: Robertinho Silva
O Rodolfo me mandou um fax com a letra e, por telefone,
cantou a música quando acabava de fazê-la. Ela tem essa simplicidade
de canto popular, que eu adoro, e a maternidade, a feminilidade com que
a minha voz combina. Nós gravamos sem percussão em São
Paulo e depois, no Rio, o Robertinho deu a ela um tempo e um cenário.
4. MENINA AMANHÃ DE MANHÃ
(Tom Zé / Perna)
Piano e arranjo: Benjamim Taubkin
Acordeon e arranjo: Toninho Ferragutti
Flautas e Sax Barítono: Teco Cardoso
Violão e cavaquinho: Webster Santos
Baixo acústico: Rodolfo Stroeter
Percussão: Ari Colares
Um dia, o Rodolfo me disse: “Lembrei de uma
música pra você. Compra o cd 2 em 1, do Tom Zé. Ela
se chama ‘Menina amanhã de manhã’.”
Eu adorei a música imediatamente, mas não conseguia me imaginar
cantando. Tentei cantar em casa - com meu violão insuficiente -
e não cheguei a nenhum lugar.
Já na pré-produção do Iaiá, conversando
com o Ferragutti, eu disse: “Tem essa música do Tom Zé,
que eu tenho certeza que pode ficar linda, mas não consigo achar
o caminho, o que você acha?”
Ele ouviu, adorou e insistiu. Junto com o Benjamim, o Toninho e eu ficamos
procurando uma forma estrutural pra levar para o estúdio.
Também foi gravada ao vivo e, por todo mundo ter se apaixonado
imediatamente por ela, ficou cheia de alegrias, de saudades e de Brasis.
5. VINGANÇA
(Francisco Mattoso / José Maria de Abreu)
Acordeon e arranjo: Toninho Ferragutti
Clarinete, sax alto (cortesia do Moreno) e
ar. de sopros: Nailor
"Proveta" Azevedo
O Ferragutti me mostrou uma fita cassete com gravações
do Gastão Formenti cantanto músicas que ele ouvia em sua
casa no interior de São Paulo.
Fizemos “Vingança” num show de duo e depois ela entrou
para uma das noites de Música Cabocla, no projeto Ponto In Comum.
Gravamos ao vivo, voz e acordeon, e depois o Proveta muito sabiamente
criou essa conversa entre o sax e o clarinete. Então eu vi o coreto,
a praça, o baile, tudo dentro da história.
6. POR TODA A MINHA VIDA
(Tom Jobim / Vinícius de Moraes)
Violão e arranjo: Paulo Bellinati
Essa música nós fizemos juntos, no
programa Ensaio, da TV Cultura. É muito emocionante cantá-la
e muito importante o meu duo com o Bellinati - desde os Afro Sambas. Aprendi
com ele a cantar escutando, cantar junto, fazer música.
7. ASSUM BRANCO
(José Miguel Wisnik)
Violão, percussões no violão e arranjo: Paulo Bellinati
Baixo acústico: Rodolfo Stroeter
Violoncelo: Lui Coimbra
Quando eu ouvi essa música pela primeira
vez, fiquei encantada com sua delicadeza e cuidadosa construção
melódica. É delicioso cantar indo atrás de cada nota,
como se fosse um bordado. Assim, a gente pensou nas percussões
no violão do Bellinati. Pra mim, elas têm um som de algo
em construção, de artesão. Adoro isso!
8. CIDADE LAGOA
(Sebastião Fonseca / Cícero Nunes)
“Sujeito a Guincho”
Clarinetes: Luca Raele, Edmilson Nery, Sergio Burgani
Clarones: Luiz Afonso “Montanha” e Nivaldo Orsi
Arranjo: Luca Raele
Fiquei um pouco preocupada com possíveis
más interpretações dessa música, por ela falar
das enchentes cariocas. Não é o caso. O que me cativou foi
a brincadeira, as imagens, a “girafa” e a malandragem sedutora
do personagem. Quando convidei o Sujeito a Guincho pra tocar comigo, achei
que ficaria legal fazer voz e clarinetes, mas o Luca Raele acabou indo
muito além: fez um arranjo brilhante, divertido e cheio de imagens,
como só ele poderia fazer e só esse quinteto poderia tocar.
Foi um presentão!
9. DOCE NA FEIRA
(Jair do Cavaquinho / Altair)
Piano: André Mehmari
Percussão: Ari Colares
Flauta: Teco Cardoso
Conheci as músicas do seu Jair através
da Teresa Cristina, no Bar Semente, na Lapa carioca. Esse samba-maxixe
foi a primeira música dele que eu ouvi. Naquela noite, tinha um
grande grupo de adolescentes cantando com ela os “ai, ai, ais”.
Fiquei muito emocionada a noite toda com a volta ao samba, a garotada
cantando Candeia, Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, seu Jair (novo
pra mim) e a Teresa Cristina cantando tão lindo.
10. SINHAZINHA (DESPERTAR)
(Chico Buarque)
Piano e arranjo: André Mehmari
Essa música faz parte da trilha sonora do
filme Para viver um grande amor, de Chico Buarque e Tom Jobim. Desde o
começo da minha carreira, eu cantei várias músicas
dessa trilha. Sinhazinha vem dessas paixões.
O André e eu fizemos essa versão pensando na melodia e na
voz como solitárias em relação ao piano, e este,
livre, criativo e sofisticado, comentando, colorindo a poesia.
11. ONDE IR
(Vanessa da Mata)
Piano e arranjo: Benjamim Taubkin
Acordeon e arranjo: Toninho Ferragutti
Flauta: Teco Cardoso
Violões: Webster Santos
Baixo elétrico: Rodolfo Stroeter
Percussão: Ari Colares
Fiquei muito feliz por escolher uma música
da Vanessa da Mata, porque sinto que ela tem uma “alma de compositora”.
Esse arranjo foi estruturado pelo Benjamim e pelo Toninho, e depois criado
em grupo no estúdio. Ficou todo mundo com essa espécie de
saudade, esse final de tarde, esse “depois da chuva”...
12. É DOCE MORRER NO MAR
(Dorival Caymmi)
Piano e arranjo: Benjamim Taubkin
Sax Barítono: Teco Cardoso
Baixo acústico: Rodolfo Stroeter
Percussão: Caito Marcondes
As músicas do Dorival Caymmi - assim como
a voz da Clementina de Jesus e o Villa-Lobos - são, para mim, jóias
preciosas que trazem um Brasil inspirador, rico, vivo e único.
13. NA ALDEIA
(Silvio Caldas / De Chocolat / Carusinho)
Violão 7 cordas e arranjo: Maurício Carrilho
Cavaquinho: Luciana Rabello
Bandolim: Pedro Amorim
Violoncelo: Iura Ranevsky
Pandeiro: Jorginho do Pandeiro
Reco-reco: Celsinho Silva
Surdo: Gordinho
Prato e faca: Paulino
Clarinete: Nailor "Proveta" Azevedo
Coro: Analimar, Ana Costa e Jurema de Cândia
Participação especial: Teresa Cristina
Em 2002, por conta de uma noite do projeto Ponto
In Comum (Sesc Ipiranga SP), Cristina Buarque me mandou alguns cds com
sambas lindos que eu não conhecia. Na Aldeia é um dos 60
sambas que eu escutei e aprendi, escolhidos a dedo por ela, autoridade
no assunto, apaixonada por procurar e generosíssima com quem quer
aprender.
A Teresa Cristina, a quem eu também sou muito grata, participa
lindamente dessa gravação.
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